segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Série Dr. Martin Fischer - 04: Plínio Brasil Milano - Primeiro Chefe do DOPS do RS e treinado pelo FBI dos EUA


Delegado Plínio Brasil Milano treinado pelo FBI
       Plínio Brasil Milano nasceu na cidade do Alegrete, RS, no dia 07 de outubro de 1908. Casou-se com Lucia Caldas, filha do fundador do jornal Correio do Povo e teve 4 filhos. Em 1932, na Capital formou-se em Direito, e foi como delegado de polícia que se projetou no cenário policial nacional e internacional. Articulador, reorganizou o aparelho policial do Estado do Rio Grande do Sul. Criou a biblioteca da Polícia Civil e a revista "Vida Policial". O periódico mensal era editado pela Chefia de Polícia do Rio Grande do Sul durante o Estado Novo e apresentava uma página intitulada ”Os astros da Coluna”, aonde ficavam fotografias, dados pessoais e  profissionais, de pessoas “suspeitas” de fazerem parte da “Quinta Coluna”[01] e que tinham passado pelo interrogatório do DOPS/RS.
        Plinio montou o primeiro serviço de contra-espionagem do País. Com este serviço desfez uma rede nazista no Rio Grande do Sul, que lhe valeu um convite do FBI (EUA) para participar de um curso de investigação (1943). Também desmantelou uma rede internacional de tráfico humano que atuava no RS, São Paulo, no Uruguai e na Áustria. Foi Milano que organizou a primeira ação de defesa civil no Estado durante a enchente de 1941 em Porto Alegre. Com seus homens, salvou centenas de vidas e evitou saques nas casas alagadas, além de distribuir agasalhos e alimentos. 

 O chefe do DOPS(RS) e agente do FBI

A Delegacia de Ordem Política e Social – DOPS do Rio Grande do Sul, (cuja sede estava situada na rua Santo Antônio, 600, em Porto Alegre), cujo primeiro chefe foi Plínio Brasil Milano, foi regulamentada como setor independente e especializado, a partir de 1937. No Rio Grande do Sul, o órgão responsável pela repressão dos crimes políticos até 1937 era a 3ª Delegacia Auxiliar.
Durante sua chefatura, Plínio estabeleceu importantes contatos com o FBI – órgão Departamento Federal de Investigação dos Estados Unidos responsável pelas investigações no território norte americano – pois, para a política externa norte-americana, o Rio Grande do Sul “era crucial para os planos de contra-espionagem” porque “tinha uma grande população de europeus natos ou de descendentes de europeus, e fazia limite com o Uruguai e Argentina, países que tendiam  para o Eixo”[02]  
Além disso,  Plínio era muito estimado pelo FBI, pois reconhecia a necessidade do Brasil possuir uma polícia política articulada e eficiente aos moldes da agência norte-americana, ou seja, “a avaliação que Plínio fazia das necessidades de segurança interna do Brasil coincidiam com as metas do FBI em relação ao Brasil”[03].
Plínio solicitou que um agente do FBI fosse trabalhar junto a ele no DOPS/RS, iniciando o processo de aperfeiçoamento da organização e do treinamento policial. Uma das evidências do aparelhamento do órgão gaúcho pela agência americana é a existência de um radiogravador utilizado para escutas telefônicas que se encontra no Museu da Polícia Civil, em Porto Alegre.
 Em memorando encaminhado à agência dos Estados Unidos, em 10 de abril de 1943, Plínio afirmava que o agente especial do FBI que trabalhasse no DOPS/RS “teria acesso aos arquivos da polícia, permissão para interrogar prisioneiros e gozaria de todos os direitos de um membro do DOPS/RS”.[04]
No início de 1943, o chefe do DOPS/RS foi  convidado pelo órgão para visitar a academia de treinamento em Washington, Estados Unidos. No seu regresso, ao término daquele ano, Plínio e quarenta agentes especiais do FBI foram designados para trabalhar na Polícia Federal do Rio de Janeiro. Mesmo com a transferência, Plínio continuou estabelecendo relações entre a polícia gaúcha e o FBI até sua morte. O período compreendido entre 1945 e 1964 apresentou em relação ao período do Estado Novo elementos de continuidade das práticas de polícia política e na legislação.[05]

Plinio Brasil Milano e Dr.Martin Fischer

Em nossas pesquisas, encontramos na “Coleção Martin Fischer”, existente no Museu Antropológico Diretor Pestana – MADP de Ijuí, que reúne documentos pessoais do imigrante e historiador  - que residiu  em Ijui (RS) até sua morte em 1979 - mais  uma carta, na qual, podemos observar as grandes relações que Dr, Martin Fischer possuía com nomes que fizeram a história do Rio Grande do Sul, do Brasil e do mundo.

Nesta carta em particular, datada de 30 de outubro de 1942, Martin agradece ao Delegado Chefe do DOPS(RS) Dr. Plinio Brasil Milano, a intervenção feita por ele, junto ao Delegado de Iraí, através de um simples telegrama, ordenando que o mesmo, coloca-se Fischer em liberdade, uma vez que ele ali se encontrava preso sob acusações de espionagem nazista. (Mais detalhes sobre esse episódio ver o artigo 03 da “Série Dr. Martin Fischer”, sob o título “Aspectos históricos e biográficos da vida de Martin Fischer, idealizador e fundador do Museu Antropológico Diretor Pestana - MADP de Ijuí - um ´HEIMATMUSEUM`!”, disponível em: http://ijuisuahistoriaesuagente.blogspot.com.br/2012/08/serie-dr-martin-fischer-03-sobrevivente.html

 Além do Dr.Martin Fischer, agradecer a Plinio por ter o considerado um ”homem de bem”, ainda deixa  muito claro que a partir daquele momento tinha uma  divída de  gratidão que nunca seria esquecida e que seria retribuída para o resto da sua vida. (conf.: MADP 0.6.4 pasta 05 documento 120).
Não sabemos se o Dr.Martin Fischer teve tempo de retribuir sua gratidão, pois Plinio Brasil Milano no dia 22 de outubro de 1944 , foi morto, aos 36 anos de idade, em Montevidéu, Uruguai, durante uma operação de contra-espionagem.
Mas, por outro lado, conseguimos entender a surpresa e a tristeza da noticia desta morte para Fischer, quando encontramos o telegrama enviado ao então Delegado do DOPS(RS) em 1944, Theobaldo Neumann  expressando  suas condolências (MADP 0.6.4 pasta 05 documento 133) e a correspondência  enviada ao Inspetor Chefe do DOPS (RS) Evaldo Bergmann, na qual as palavras escritas no papel questionam essa fatalidade... “Quem compreende o destino e a Divina Onipotência?”.... ( Martin Fischer,MADP 0.6.4 pasta 05 documento 134).
  Cópia de Telegrama despachado em 24 de outubro de 1944.
Acervo do MADP de Ijuí.
Transcrição do telegrama:  Ao “....Dr.Theobaldo Neumann, então Delegado Ordem Politica e Social – DOPS em Porto Alegre. Profundamente abalado pela noticia do falecimento do excelentíssimo benemérito Dr.Plinio Brasil Milano venho pela presente prestar a Vossência os meus sinceros pêsames. Respeitosas recomendações. Martin Fischer...”
Referências e notas explicativas:

[01] QUINTA COLUNA é um termo usado para se referir a grupos clandestinos que trabalham dentro de um país ou região, ajudando a invasão armada promovida por um outro país em caso de guerra internacional, ou facção rival no caso de uma guerra civil. Por extensão, o termo é usado para designar todo aquele que auxilia a ação de forasteiros, mesmo quando não há previsão de invasão.
A origem da expressão remonta a Emílio Mola Vidal, general nacionalista espanhol que atuou na Guerra Civil Espanhola. O termo ganhou força no curso da Segunda Guerra Mundial, denominando aqueles que, de dentro dos Países que combatiam o Eixo, apoiavam a política de Guerra nazista e de seus aliados, tal como aconteceu com parte dos alemães que habitavam os Sudetos ou com os fascistas Brasileiros.
A ação de uma quinta coluna não se dá no plano puramente militar. Assim como os demais partícipes de uma guerra, os elementos quinta-colunistas agem por meio da sabotagem e da difusão de boatos. Em outras palavras, pode-se dizer que a força da quinta coluna reside tanto na possibilidade de "atacar de dentro", como na capacidade de desmobilizar uma eventual reação à agressão que se intenta. Fonte: Wikipedia. Disponível em: www://pt.wikipedia.org/wiki/Quinta_coluna
 [02] HUGGINS, Martha. Polícia e Política: Relações Estados Unidos/América Latina. São Paulo: Cortez, 1998, p. 73.
[03] Ibid.
[04] Ibid., p. 73-74).
[05] BAUER, Caroline Silveira. O Departamento de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul (DOPS/RS): Terrorismo de Estado e Ação de Polícia Política durante a Ditadura Civil Militar Brasileira. Revista Ágora, Vitória, n. 5, 2007, p. 1-31.  Disponível em: https://docs.google.com/viewer?a=v&q=cache:cG7o7sMU6e4J:periodicos.ufes.br/agora/article/download/1908/1420+&hl=PT-BR&gl=br&pid=bl&srcid=ADGEESiofK2ZP1pV_g6Ho9yHI8Xa41vlt32ZJZqkAS6XMHw-wEnD2UdVEcQkHr_FzUtNjtCbWVo7w5kohzErLNVoOe7v5ZIeff2hJVCl_Ue2l1ojM80GXt7L8Az8f0VkkW-WUYRQfc-R&sig=AHIEtbTemrkwlQhMqZgyOBgIdPlUYvGR1g

  Pesquisadora e historiadora Marcia Adriana Krug
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