domingo, 3 de outubro de 2010

Testemunho do grande ataque de gafanhotos em Ijuhy e adjacências em 1917

Testemunho do grande ataque de gafanhotos em Ijuhy e adjacências em 1917


No Blog denominado “Sobre a Colônia Leta do Rio Novo – (1892-1953)“  há um relato e registro histórico de uma carta de 1917 de um imigrante da Letônia que morava na Colônia Rio Novo, Orleans, SC,  (e que tinha algum contato com a recém-fundada Colônia de Ijuhy). Na mesma e de forma pessoal/familiar escreve para um amigo seu que morava no Rio de Janeiro, RJ, contando em detalhes “fotográficos” como foi, e os estragos causados, pelo grande ataque de gafanhotos nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. E também na então Colônia de Ijuhy,  “e suas adjacências”.

OS PRIMEIROS IMIGRANTES DA LETÔNIA

A primeiras leva de imigrantes da Letônia que chegaram no Brasil, no final do século 19 e início do 20, se fixaram em Santa Catarina, por volta de 1892. Inicialmente, ao longo do rio Novo, Orleans, então município de Tubarão, aos pés da Serra de São Joaquim. Ali esses primeiros imigrantes também fundaram sua colônia e organizaram aquela que seria uma das primeiras Igrejas Batistas em solo brasileiro.
A restituição da história da Colônia Leta do Rio Novo somente hoje é possível segundo a autora do Blog pelo fato que inúmeras cartas escritas pelos primeiros imigrantes locais e enviadas para outro familiar/amigo no Rio de Janeiro foram guardadas através dos anos, e hoje foram tornadas públicas. Ela explica: “... A história começa (como costuma acontecer) com um filho que sai de casa. Em 1917 meu tio-avô Reynaldo Purim (...), tio do meu pai, deixou o Rio Novo para estudar no Seminário Batista do Rio de Janeiro. Mais tarde ele se tornaria pastor, doutor e se provaria o grande intelectual (solteirão) da família, mas esta é outra história. De especial interesse para a reconstituição da história da Colônia está em que, durante décadas, meu tio Reynaldo (o métodico, o obsessivo — graças a Deus) arquivou as cartas que lhe mandavam, do Rio Novo para o Rio de Janeiro, os familiares e amigos que deixara para trás na Colônia.
Há anos meu pai, V. A. Purim, (nem tão métodico, mas igualmente obsessivo) vem trabalhando para resgatar do esquecimento esse material, convicto do indizível valor do que tem para contar. Não é um trabalho fácil, porque se tratam de cartas em sua maior parte manuscritas, em sua maior parte em língua leta, escritas por diversos personagens com estilos próprios, em suas próprias caligrafias, ao longo de um período de décadas. Meu pai as traduz uma a uma, em ordem cronológica, e a partir de sua própria experiência na Colônia insere indispensáveis notas de rodapé...”.

RELATO DE UM ACONTECIMENTO HISTÓRICO NA “IJUHY” DE 1917

Entre inúmeras cartas transcritas no Blog temos a de Robert Kavin  que escreve para Reynaldo Purim . A data da mesma é de 8 de novembro de 1917. O título dado a mesma é “muita gente perdeu tudo”.  Robert Kavin não era um morador/imigrante da Letônia na recente Colônia de Ijuhy.[1] Mas, não há dúvidas que ele tinha contato, familiares, amigos seus que vieram morar em nossa cidade, e através deles soube do acontecido, e sobre o qual escreve para seu amigo Reynaldo Purim, então residente no Rio de Janeiro, RJ.

Eis a seguir a íntegra de seu relato publicado no blog:

“... Provavelmente já tens notícia através de jornais de que na Província do Rio Grande do Sul foram literalmente destruídas diversas colônias, inclusive Ijuhy [Ijuí] e suas adjacências.
 A quantidade de gafanhotos seria tanta que o tráfego ferroviário estaria interrompido nas serras daquela província; aqui nas serras a espessura das camadas de gafanhotos seria mais de um metro, diante do que os serranos com suas tropas não conseguiriam prosseguir, etc.
Na semana do dia 23 de outubro (de 1917) começaram as primeiras revoadas. Muitos não pousavam, mas, todos dias passava uma nuvem de gafanhotos: um dia maior, outros dias menor. Os que pousavam eram um tanto medrosos e às vezes levantavam, saíam voando alto e iam embora. Mas havia aqueles que ao serem espantados somente mudavam de lugar. Nunca na minha vida tinha visto tantos gafanhotos. Eles devoraram grande parte do milharal e seis litros de feijão plantado; ainda bem que sobrou a maior parte, pois muita gente perdeu tudo.
No domingo, último dia de outubro, eu ia para o Rio Laranjeiras, passando pelo baixo Rio Novo, quando passaram nuvens de gafanhotos atravessando o rio. Quando cheguei na terra dos Paegles tinha ainda mais, e naquele trecho do lado do mato tinham pousado e estavam se aprontando para por ovos. Mas dentro da mata virgem não tinha nenhum.
Tendo atravessado a mata perto do morro onde mora o Leonardo, tinha ainda muito mais. Na beira do Rio Laranjeiras eram tantos que faziam barulho (com as asas e as pernas) que não se ouvia outra coisa. Ao redor da casa de Caciano eram muitos, e na maioria estavam agarrados um ao outro. Os filhos do Caciano tentavam debalde espantar, pois uma vez que estes levantavam vôo, outros tantos pousavam atrás. A tendência deles era ir para as partes mais baixas do terreno comendo tudo que havia de verde por frente. A grama dos pastos já não mais existe, e coitado do gado que não tem mais nada para comer: permanece imóvel.
Quando voltei subindo o Rio Laranjeiras a paisagem continuava cheia desses bichos. Atravessei o rio perto de onde alguma vez o Treimanis morou e subi aquele morro que subimos montados para visitar aquele conhecido teu e do Arthur, mas lá no alto não tinha nenhum.
Os brasileiros contaram que em Capivaras também lá passaram imensas nuvens de gafanhotos e pousaram e puseram ovos; quando o chão é cavado com uma enxada pode-se ver uma quantidade imensa de ovos, então calcule o estrago que vão fazer quando eclodirem em milhares de novos gafanhotos.
Também os de Rio Laranjeiras contaram sobre a chegada; segundo eles foi assustadora, devido à imensidão das nuvens de gafanhotos, comparável a uma tempestade assoladora que fez escurecer os céus e a terra. O pessoal de lá usou de tudo para tentar espantar e fazer que continuassem sua rota, e acham que conseguiram algum resultado.
Esta região é muito procurada pelos gafanhotos; começando pelo Rio da Prata até Araranguá, poucos lugares deixaram de serem incomodados por esses insetos. E agora tive noticias de que no Rio da Prata chegaram ainda mais. Também em Urussanga fizeram estragos terríveis por toda aquela área. No Barracão ficaram mais para desova do que no Rio Laranjeiras.
Dizem que no Rio Belo também foi demais. Em Palmeiras e Santa Clara também.
Soube também que perto de Campinas [Nota: o mesmo que Araranguá] grande quantidade destes bichos, ao voarem para o mar, terminaram por se afogar; agora os pescadores não podem mais ir pescar, pois se atolam até a cintura na camada de gafanhotos mortos que o mar devolve para as praias. Também temos notícias de Florianopólis, de que lá a quantidade de gafanhotos afogados foi tanta que o mar devolveu para as praias, chegando a uma camada de dois metros e meio de altura…
Ainda hoje está passando pequena quantidade deles, mas voando muito alto que dificilmente se vêem; fossem poucos não seria possível avistar. Ontem apareceu uma nuvem branca que se deslocava para os lados do Rio Pequeno e ia se afastando. Muita das serras, e não era outra coisa senão outra nuvem deles. O que mais pode acontecer só Deus sabe....”.


[1] Os Letos em Ijuí.  Segundo o historiador Ademar Campo Bindé:
 
      “Ijuí tornou-se a primeira colônia leta no Rio Grande do Sul. Segundo descreve o reverendo Frederico Linck na ‘Enciclopédia Rio-Grandense’, 5º volume, 1958, os letonianos ou letos foram atraídos para Ijuí, influenciados pelas narrativas dos agentes de colonização, que diziam ser a Colônia de Ijuhy muito parecida com a Europa. Os primeiros imigrantes letos que aqui chegaram, em 1892, vieram da Argentina, onde não estavam muito satisfeitos. Eram as famílias Aberkaln, Kuda, Kronberg, Ulrijis, Priede e Mikelson, que foram se radicar entre as Linhas 4, 5 e 6 Oeste. Pouco depois chegaram as famílias Sakis, Jahnis Sakis e Indrikis Paise, que foram ocupar colônias entre as Linhas 7 e 8 Leste, nas proximidades do rio Ijuí Grande...”.
Fonte: BINDÉ, Ademar Campos. As Etnias em Ijuí, Os Letos. Volúme 4, pp. 18-19. Ijuí, 2006.
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